Enquanto eu escrevo os endereços no grande envelope almofadado a ser enviado à J. e ele trata dos outros pacotes que lhe passei para as mãos, vamos falando de aspectos relacionados com o correio.
Já eu arrumava os trocos no meu porta-moedas, quando o senhor se inclina sobre o balcão:
-E uma prendinha para o dia da Mãe? - pergunta, apontando para alguns produtos disponíveis sobre o balcão.
Eu olho para ele e com toda a calma e de expressão serena respondo:
-Pois... É complicado. A minha já não está aqui.
O senhor desdobra-se em desculpas, fica quase atónito. Eu apenas lhe digo que não há nada que desculpar e que ele não ia adivinhar. É a lei da vida e temos de aceitar as suas vicissitudes. Despeço-me amistosamente e deixo-o para trás ainda a pedir desculpa. Creio até que algo embaraçado. Mais uma vez volto àquele velho pensamento: porque razão um facto tão incontornável como a morte ainda continua a ser tão tabu?
Isto é apenas um exemplo das muitas situações que me acontecem. Eu encaro-as com naturalidade. De nada adianta revoltar-me. Aquilo que tento todos os dias é ser o que me ensinaste e essa é a melhor maneira de honrar a tua memória. É óbvio que há muita saudade cá dentro, muitas lembranças, muitos afectos perdidos, muitas realizações de amanhã que não terão a tua presença física. Mas não percebo porque tens de ser um "tema difícil", porque não posso falar em ti apenas porque já partiste. Seria bom que os outros soubessem que isso é fundamental para que te possa manter viva.
5 comentários:
acho que as pessoas têm medo da morte e como era sobre a tua mae, ele atrapalhou-se... mãe é mãe... e tu aceitaste a morte dela...
eu tb fico um pouco atrapalhada...
bjnh
É normal que as pessoas fiquem "acanhadas" com o tema, principalmente quando o sabem pela primeira vez, até porque não sabem como reages perante a situação e o tema. Mas à medida que te vamos conhecendo vamos tendo mais à-vontade para falar com o tema, porque sabemos que o falar na tua mãe e o relembrar a sua imagem te faz sorrir, te faz bem.
O tema da morte é sempre delicado. Sempre o foi e sempre o será, se não por ser sentido, pelo menos por convenção e necessidade pública. E o medo dela também é normal. Eu não tenho medo da morte. Da minha tenho da dor que pode advir daí e do sofrimento que pode provocar em quem me ama, principalmente. Quantas vezes penso na minha morte e só quando imagino o estado dos meus pais e irmão perante esta situação sofro. Da dos outros tenho medo do vazio e da ausência.
Oh, minha linda. Era tão importante todos saberem que a morte é somente uma passagem, um modo de mudarmos de plano, para outro mais superior (os que avançam), pois há os que ficam perdidos entr o cá e o lá. Mas aceito perfeitamente que te sintas bem a falar da tua querida mãe, isso é sinal que ela está bem mais próximo de ti do que aquilo que possas imaginar e é essa paz que ela te envia, que te faz sentir em paz e tranquila com o assunto. Mas a maioria das pessoas esse é um assunto tabu, pois encaram a mrte como o fim de algo e não é isso que se passa na realidade.
um beijo honesto para ti.
Sonia
Olá minha querida.
Tens razão devemos falar dos entes queridos que já partiram, pq só assim estarão sempre mais presentes.
Mas eu compreendo o senhor dos ctt. Ele ficou com receio de te magoar e/ou de te fazer lembrar algo doloroso.
Está linda a forma como expões as tuas ideias, e que linda imagem escolheste para acompanhar este texto.
Um forte xi-coração
Oi querida,
como eu compreendo, bem até demais...mas não tenho a tua força para falar com naturalidade... prefiro não falar .... desconversar ... evitar.... cada um com a sua maneira de lidar com a situação. :):):)
Bjs
Mafalda
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