Sinto o fresco da noite na pele. A madrugada cumpre o seu dever e avança, sem pressas. O silêncio é tão absoluto que se consegue ouvir. Não é um paradoxo, mas antes o que experimento. Existem noites em que o silêncio é tão grande que ele próprio adquire um som. Não sei explicar. Mas oiço-o. Ele embala-me na contemplação do firmamento. Da lua grande e brilhante. Parece tão perto, tão alcançável. Passeia um gato na rua debaixo dos meus pés. Tranquilo, senhor da noite. Talvez tenha alma de gato. Talvez isso explique a minha paixão por eles e pelo negro calmo da noite. Acho-a mágica, encantadora. Seduz-me, desde o momento em que o sol declina até ao amanhecer, cada momento com a sua poética beleza.
Sou noite. Gosto do dia, da luz, da cor, da vida. Mas a noite acena-me com o seu não-sei-quê de mistério, aquela pitada de clandestinidade, a estúpida sensação que somos donos de um mundo adormecido. E livres, como o gato que sobe o asfalto, placidamente, qual senhor que vigia as suas terras e vai por onde quer.
Sim, definitivamente sou noite. E mar, natureza, chuva, tempestade, dia frio com sol. Prosa, música, imagem, flores. Emoção, partilha, sentidos e abraços. E noite. Antes de tudo, noite.